quinta-feira, 8 de julho de 2010

O CRIVO DO PERDÃO

O Crivo do Perdão

Perdão é sempre um assunto relevante porque o tempo todo alguém está ferindo um outro alguém. O pastor Craig Hill, fundador do Family Foundations International, afirma, no Curso Veredas Antigas, que pessoas feridas e magoadas acionam de forma inconsciente um mecanismo de proteção, colocando um tipo de escudo invisível sobre o coração para evitar nova dor. A questão é que esse escudo não é seletivo e, ao tentar bloquear uma nova amargura ou dor, ele acaba impedindo também que a pessoa receba o amor de outros e, conseqüentemente, o amor de Deus. 

Isso precisou acontecer comigo várias vezes em situações as mais diversas. Porém uma realmente me marcou e me levou a uma experiência inesquecível no ano de 1994. Ao estudar 1 João 1.7 e 2.9, fui confrontado pelo Senhor a respeito de um desentendimento que acabou me separando de um de meus melhores amigos. Argumentei com o Senhor que já o havia perdoado e não guardava rancor ou ressentimento, que não trazia no meu coração qualquer amargura, e a única coisa que eu não queria era a aproximação, a fim de evitar novo desgaste, já que de minha parte estava tudo resolvido. Eu estava bem daquele jeito! 

Foi exatamente aí que me veio a seguinte pergunta ao coração: como você pode saber se perdoou ou não a quem o feriu? Quais as atitudes que sinalizam uma possível ausência de perdão? Através da Palavra, o Senhor me respondeu e me corrigiu da seguinte forma: 

1- Você não perdoou seu ofensor se prefere a distância à proximidade! Não se trata de possibilidade, mas de escolha. Expressões do tipo: “Não tenho nada contra ele, mas é melhor ele lá e eu cá!” denotam, por si só, uma indisposição de correr o risco, de tentar de novo. Tudo fica bem desde que a distância. “Se me encontrar com ele, até cumprimento. Mas é só!”. Não foi assim que nosso Pai Celeste nos perdoou. Ele derrubou a parede de separação, Ele veio em nossa direção. O pai do filho pródigo correu e envolveu o filho em seus braços (Lucas 15:20). O perdão aproxima e acolhe. Sua ausência mantém a distância! Novamente o pastor Craig Hill nos ensina que é necessário desarmar o mecanismo de proteção e correr o risco para que a distância sustentada pela ausência de perdão seja encurtada. Esta foi a experiência de José, que no primeiro contato com seus irmãos no Egito manifestou toda a amargura e ressentimento armazenados durante anos de escravidão e prisão, porém não demorou até que reconsiderasse sua posição de ofendido distante, transformando-se em um perdoador acolhedor. Quanto a mim e ao meu amigo distante, eu nem sabia por onde ele andava, nem queria saber... 

2- Você não perdoou seu ofensor se não consegue olhar-lhe nos olhos com ternura! Já presenciei pessoas conversando, alegres e descontraídas, até avistarem seu algoz. O tom da voz muda, o semblante se contrai, e fica nítido que algo permanece sem solução. O constrangimento provocado pela presença é manifesto no olhar frio ou evasivo, até mesmo agressivo e transmitindo desagrado. Talvez, quem sabe, um sorriso forçado, com palavras ensaiadas para evitar que a verdade dos olhos seja exposta. Lembro-me de Jesus demonstrando amor ao jovem rico e cheio de justiça própria, apenas com um olhar. Nosso Pai Celeste mantêm seus olhos sobre nós, seus filhos, mesmo em nossos descaminhos. Não com reprovação, não com ressentimento. O perdão manifesta aceitação e amor até mesmo com um olhar. Sua ausência desvia o olhar e turva a visão. No livro Casamento Debaixo de Proteção, que relata a experiência traumática vivida pelo casal Bob e Audrey Meisner, percebemos o quanto é verdadeira a afirmação de que a ausência de perdão impede a comunicação do amor através do olhar. Audrey relata: “Os olhos dele ardiam com uma raiva tão intensa que me atingiu como um chicote... seus olhos me atravessavam”. Quanto ao meu amigo, eu não sabia qual seria minha reação ao vê-lo novamente... 

3- Você não perdoou seu ofensor se a simples menção do nome da pessoa o faz sentir-se mal! “Mude de assunto. Por que você tinha que falar do fulano? Estragou meu dia.” Essa é a reação típica daqueles que admitem a existência de um obstáculo em relação ao ofensor. Para outros pode ser a indiferença ou a zombaria. Em qualquer dos casos, o nome reacende o caso, reaviva a memória, a dor julgada morta se levanta fustigando o coração. O nome de Davi estava em alta entre o povo, o de Saul em baixa. Saul sentia-se preterido pelo povo. A menção do nome de Davi incomodava a Saul, especialmente quando cantado pelas mulheres. “Adão, onde estás?” O nome de Adão não causava repulsa ao Senhor. Pelo contrário, ele o chamou pelo nome para providenciar restauração e mostrar sua graça e assim também nos chama: “Te chamei pelo nome, tu és meu!”, “Eu tenho te gravado na palma das minhas mãos” (Isaías 43.1, 49.16). O perdão adoça o nome do ofensor. Pela sua ausência, o fel da alma é ativado ao som do nome do ofensor. Imagine o quanto me irritava e corroía a alma alguém perguntando: “Por onde anda aquele seu amigo...?” 

4- Você não perdoou seu ofensor se as lembranças dos últimos momentos passados juntos só trazem más recordações! Muitos vivem lutando contra as lembranças amargas, tentando removê-las por completo através de terapias e tentando mudanças geográficas, físicas e comportamentais radicais. O ofensor nos seguirá aonde formos; as marcas seguirão mais profundas na alma do que na carne. A ofensa não é uma questão de presença física, mas de presença espiritual. A ausência de perdão transforma o passado em um eterno presente. Não importa há quanto tempo tenha ocorrido o dia da transgressão, ele sempre parecerá tão próximo quanto o momento chamado agora. João Marcos abandonou a equipe de Paulo, provocando uma grande discussão entre este e seu amigo Barnabé. Era de se esperar que Paulo não quisesse mais em sua equipe aquele que provocou tamanho desgaste e prejuízo. Depois de algum tempo e com o tratamento divino na vida de ambos, Paulo reintegra-o à sua equipe, chama-o de companheiro e recomenda-o aos Colossenses. Como deve ter sido reconfortante para Marcos receber o recado de Paulo: “Tragam Marcos de volta, ele me é muito útil!” Paulo não julgou Marcos, nem o difamou. O perdão proporcionou um novo momento, um novo encontro. O que não podemos é viver de memórias amargas que acabam aprisionando ofendido e ofensor em uma mesma masmorra!  

Cinco anos haviam-se passado desde que eu e meu amigo nos separamos. Ele comprou uma casa que não conheci, teve um filho que não vi. Só o procurei na morte de dois de seus irmãos, mas foi tudo muito frio, assim como o próprio motivo de nossa separação. Eu me recusava a entender como isso foi acontecer. Justo conosco, que por algum tempo dividimos uma casa, cantamos no mesmo grupo musical e iniciamos uma igreja. Logo comigo, que fiz o seu aconselhamento pré-conjugal e também seu casamento. Esse questionamento durou muitos anos. 

Em 1999, a igreja que eu pastoreava organizou uma festa surpresa no meu aniversário. Minha esposa Norma convidou esse meu amigo e sua esposa sem que eu soubesse. No meio do culto, enquanto pregava, eles entraram no templo, meu coração disparou, fiquei me perguntando: “O que ele faz aqui?”. O fato de Carlos e Beth estarem ali era uma mensagem clara: “Nós amamos você e lhe perdoamos”. Parei de falar e registrei sua presença já com lágrimas nos olhos. Desci do púlpito, abracei meu amigo, chorei com ele e, sem falar nada, voltamos a nos amar. As últimas lembranças, as da ofensa, da incompreensão, da incapacidade de discernir o mal, foram imediatamente suplantadas pelo abraço, pelas lágrimas e pela alegria do reencontro e pela disposição de perdoar e aceitar o perdão. Não me esqueço de ter ouvido alguém perguntar: “Quem é esta pessoa que roubou a cena da festa?”. A resposta era simples: meu amigo que estava morto e voltou a viver! Fui apresentado ao seu filho, à sua casa e à sua nova vida da qual voltei a fazer parte. No ano passado, ele esteve em nossas Bodas de Prata. Foi mais um feliz reencontro se sobrepondo a toda lembrança ruim, e esse é o poder restaurador do perdão. 

Talvez o Senhor esteja dizendo a você que é tempo de colocar fim a tanta tristeza e esforço pessoal para mascarar a dor provocada por relacionamentos quebrados. Aproveite esta oportunidade e ore ao Senhor pedindo a ajuda dele nesta situação. Abra o coração e deixe que ele o conduza no processo de conserto. 

O Dr. Edwin Cole e sua esposa Nancy, em seu livro “Mulher Única”, ensinam que mulheres feridas e magoadas por seus cônjuges e que não conseguem perdoar, acabam se submetendo mais facilmente à repressão e regulamentos do que ao amor e ao cuidado do homem. Se seu conflito está em seu lar, você pode estar desenvolvendo a infelicidade e a angústia no coração da pessoa a quem você mais ama neste mundo (sua esposa) e a quem você mais ama no mundo celestial (seu Deus). O caminho, em todos os casos, é o perdão. 

Autor: Pr. Dinart Barradas 
Colaboração: Stefan Dyo Nishimura
Copyright © Universidade da Família
por Dinart Barradas
Postado por Roberto
Fonte: Revista Impacto
Abraço

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