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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

QUANDO TODO MUDOU

Quando Tudo Mudou

Isso não soa meio exagerado? Será que realmente tudo mudou quando aconteceu o primeiro Natal neste mundo?
A palavra “tudo” não se refere necessariamente a uma reviravolta total que tenha acontecido por ocasião da primeira vinda de Jesus ao mundo. Antes, foi dada a oportunidade a nós seres humanos de que “tudo mude” em nossas vidas!

O próprio Jesus diz: “...eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10). Hans Bruns traduziu esse versículo da seguinte forma: “Mas eu vim para que tenham a vida em toda a sua abundância” [tradução livre a partir do alemão, N.T.]. Nesse sentido, a chegada de Jesus a esta terra tornou tudo diferente; a referência é à transformação radical naqueles que aceitaram Jesus como seu Salvador pessoal.

Pessoas mudam

“Quando tudo mudou”: houve pessoas que perceberam isso de forma muito nítida já no primeiro Natal que aconteceu neste mundo. Em primeiro lugar pensamos naturalmente em Maria, a mãe de Jesus. Sua vida – e, claro, também a de José – mudou completamente. 

Por quê? Porque o Salvador entrou literalmente em sua existência! Mas também podemos dizer isso a respeito de outras pessoas: “quando tudo mudou”. Havia, por exemplo, Isabel, a esposa do sacerdote Zacarias, que – depois de ter passado sua vida inteira estéril – ainda ganhou um filho em idade já avançada. 

Ouvimos o que o anjo Gabriel diz a respeito dela em sua conversa com a virgem Maria: “E Isabel, tua parenta, igualmente concebeu um filho na sua velhice, sendo este já o sexto mês para aquela que diziam ser estéril” (Lc 1.36). O último nascimento desse tipo havia acontecido muitas centenas de anos antes: o de Isaque. 

A mãe deste, Sara, tinha mais de noventa anos quando o deu à luz. Por que Isabel e Zacarias ganharam esse filho de presente? Por um lado, isso certamente teve relação com o fato de que esse casal passara sua vida inteira pedindo por um filho – e Deus atendeu à sua oração! Por outro lado, havia nisso um sentido mais profundo, relacionado ao Plano de Salvação: o filho de Isabel deveria ser o anunciador do Filho de Deus. 

Por isso “tudo mudou” na vida de Isabel, porque o Salvador entrou na vida dela. Também em sua vida muita coisa pode mudar se o Salvador realmente puder ocupar o centro da sua existência! Permita que esse tipo de Natal se realize em você!
Para os pastores também mudou tudo: eles deixaram tudo para trás. Isso não era normal, pois o rebanho era tudo que tinham para sobreviver!

Outra transformação marcante foi experimentada pelos pastores de Efrata (Belém): depois do nascimento do nosso Salvador eles fizeram algo que nenhum pastor faz: abandonaram seu rebanho! Como puderam chegar a esse ponto? Depois que os exércitos celestiais lhes anunciaram a maravilhosa mensagem: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem” (Lc 2.14), os pastores disseram uns aos outros: “Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer. 

Foram apressadamente e acharam Maria e José e a criança deitada na manjedoura” (Lc 2.15-16). Eles deixaram tudo para trás. Isso não era normal, pois o rebanho era tudo que tinham para sobreviver! Muitas vezes os pastores arriscavam a vida para cuidar dos rebanhos. 

Certa vez, Davi contou a Saul: “Teu servo apascentava as ovelhas de seu pai; quando veio um leão ou um urso e tomou um cordeiro do rebanho, eu saí após ele, e o feri, e livrei o cordeiro da sua boca; levantando-se ele contra mim, agarrei-o pela barba, e o feri, e o matei” (1 Sm 17.34-35). 

Esses homens quebraram sua regra de ouro porque Jesus entrara em suas vidas. Repito: “tudo pode mudar”. Seu caráter pode ser mudado, manias e costumes peculiares podem ser vencidos se Jesus entrar de forma completamente nova em sua vida!

Outro acontecimento incomum aparece na história dos sábios do Oriente: em uma situação muito específica, esses astrólogos decidiram dar ouvidos somente ao Deus dos céus e não mais às estrelas. Afinal, eles tinham empreendido a viagem desde o Oriente por causa de uma estrela especial, a fim de encontrar o Rei recém-nascido; e aquela estrela realmente os levou ao destino: “...e eis que a estrela que viram no Oriente os precedia, até que, chegando, parou sobre onde estava o menino” (Mt 2.9). 

Porém, quando a questão passou a ser – mudar ou não o caminho para casa, a fim de não encontar o rei Herodes, eles não buscaram mais orientação nas estrelas, mas: “Sendo por divina advertência prevenidos em sonho para não voltarem à presença de Herodes, regressaram por outro caminho a sua terra” (Mt 2.12). Esses astrólogos, que por princípio confiavam nas estrelas, aqui ouviram a voz de Deus. Por quê? Porque o Senhor tinha entrado em suas vidas; do contrário isso não teria acontecido!

Só aquele que deu acesso irrestrito a Jesus em sua vida pode confiar como uma criança na orientação de Deus e ouvir a voz do Pai. Por isso, deixe que Jesus retome o domínio de sua vida neste Natal!

Cidades mudam

Mas não foi só na vida de indivíduos que “tudo mudou” nesse primeiro Natal do mundo. Cidades inteiras foram significativamente transformadas. Isso não se refere apenas a Jerusalém, que ganhou um brilho muito especial quando Maria e José entraram no templo com o menino Jesus. Uma outra cidadezinha também experimentou uma enorme mudança: Belém. 

Lemos a respeito de Belém e de sua posição especial: “E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Mq 5.2).
Os sábios do Oriente, que eram astrólogos, e por princípio confiavam nas estrelas, ouviram a voz de Deus. Por quê? Porque o Senhor tinha entrado em suas vidas; do contrário isso não teria acontecido!

O nascimento de Jesus realmente “mudou tudo” em Belém, pois a partir daquele momento a escrita de Deus repousa indelevelmente sobre essa cidadezinha. Mas será que Belém realmente se transformou no centro absoluto das atenções? Tal destaque ficou visível sobre essa vila? De modo algum! Naquela época quase ninguém tomou conhecimento desse fato; praticamente ninguém reconheceu que a sua cidade havia se tornado o centro da ação de Deus de uma hora para outra. 

Belém continuou sendo uma cidadezinha pequena e insignificante. Nem por isso o toque especial que Belém havia recebido poderia ser tirado dela: até hoje Belém é uma das cidades mais importantes do mundo! Para os cristãos, esse lugar é, depois do Gólgota, o segundo mais importante, porque foi ali que Jesus entrou no mundo em forma humana. Essa verdade está firmemente ancorada na Escritura Sagrada, na Palavra de Deus, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. A Bíblia testifica que “tudo mudou” em Belém. Isso foi e continua sendo uma verdade absoluta para nós.

Por que é tão importante saber de tudo isso? Bem, não são poucos os cristãos que de tempos em tempos lutam com grandes dúvidas com relação à certeza de sua salvação. De repente eles não têm mais convicção de que estão realmente salvos. Com certeza, uma das armas prediletas do Diabo – justamente nos tempos do fim – é tentar abalar o fundamento dos cristãos renascidos. 

Você também está entre essas pessoas? Então tenho uma boa notícia: se em algum momento de sua vida você aceitou o Senhor Jesus, você é filho de Deus – para sempre e eternamente! Então você é uma “nova criatura” (2 Co 5.17), então “tudo mudou” em sua vida!
Para os cristãos, Belém é, depois do Gólgota, o segundo lugar mais importante, porque foi ali que Jesus entrou no mundo em forma humana. Na foto: o bairro antigo de Belém.

Talvez agora você esteja se perguntando: “Mas como posso ter certeza disso?”. Você não tem certeza disso por causa de um sentimento, mas simplesmente porque – sabe! A Bíblia é muito clara: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (Jo 1.12). 

Você recebeu o Senhor em algum momento? Então vale para você algo que o próprio Jesus disse: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar” (Jo 10.28-29). O apóstolo Paulo também ensina essa verdade de forma enfática:
  • Romanos 8.16: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”.
  • Efésios 1.13: “Em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa”.
  • Gálatas 3.26: “Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus”.
Portanto, você é um filho de Deus e eternamente salvo! Você pode ter certeza da salvação porque assim está escrito!

Morada do Salvador

Miquéias 5.2 (citado na página anterior) contém a profecia mais marcante e conhecida da Bíblia sobre a vinda do Senhor Jesus Cristo. Numa mesma frase, esse versículo fala de duas moradas diferentes do Salvador: a eternidade como Sua morada permanente e Belém Efrata como Sua morada terrena. 

A insignificante cidadezinha de Belém passou a ser o centro dos acontecimentos, porque – em Jesus Cristo – o próprio Eterno fez Sua morada ali. O Senhor Jesus não viveu muito tempo em Belém, pois logo em seguida mudou-se com sua mãe e seu pai de criação para Nazaré; mas isso não alterou em nada o fato de que Seu primeiro lar aqui na terra foi em Belém.

Mas por que justamente Belém? A cidade não era grande (cf. Mq 5.1), e também não era de muita importância. É preciso procurar com empenho para encontrar menções a seu respeito até mesmo na Bíblia. Provavelmente nunca saberemos o real motivo pelo qual Belém foi escolhida. Mas não se esqueça das seguintes palavras: “Pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus” (1 Co 1.27-29). 

Ou: “Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam?” (Tg 2.5). Exatamente isso se deu com a pequenina cidade de Belém. Era um lugarejo insignificante, onde não acontecia nada importante e sobre o qual não se falava muito. Mesmo assim, essa vila experimentou uma renovação incomparável. Essa cidade pouco vistosa foi escolhida para receber o Filho de Deus dentro de seus muros.
Será que você também é uma Belém desconhecida, pequena – no sentido espiritual? As pessoas não reparam em você, sua vida lhe parece vazia? Você se sente fraco, indefeso ou solitário? O Senhor conhece a sua fraqueza, sofrimento e problemas, seus receios e impotência. Ele mesmo disse: “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33). Na foto: arredores de Belém.

Será que você também é uma Belém desconhecida, pequena – no sentido espiritual? As pessoas não reparam em você, sua vida lhe parece vazia? Você se sente fraco, indefeso ou solitário? Então leia Miquéias 5.2 mais uma vez, com atenção: “E tu, Belém-Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Almeida Corrigida Fiel). 

O Senhor conhece a sua fraqueza, sofrimento e problemas, seus receios e impotência. Ele mesmo disse: “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33).

Você precisa de uma nova experiência natalina: Jesus Cristo, Aquele que venceu o mundo, quer fazer morada em sua vida. No momento em que você se conscientizar do que isso significa, “tudo mudará” em sua vida!
Além disso, a Escritura fala de forma semelhante sobre Belém e sobre pessoas debilitadas:
  • sobre Belém: “E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Mq 5.2).
  • sobre pessoas que passam por provações: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Is 57.15).
O novo ano pode trazer coisas que nem conseguimos imaginar. Por isso, você precisa experimentar um Natal verdadeiro e transformador! Deixe que Jesus Cristo, em toda a Sua glória, faça morada em você!

Portanto, além de morar no céu, o Senhor também quer habitar na pequena e humilde Belém – isto é, “com o contrito e abatido de espírito”. Essa não é uma promessa maravilhosa? E o Salmo 113.5-7 diz: “Quem há semelhante ao Senhor, nosso Deus, cujo trono está nas alturas, que se inclina para ver o que se passa no céu e sobre a terra? 

Ele ergue do pó o desvalido e do monturo, o necessitado”. É exatamente isso que Jesus Cristo quer fazer com você! Pode até ser que agora, no Natal, você esteja se sentindo relativamente animado. Mas como será amanhã, depois de amanhã ou na virada do ano? O novo ano pode trazer coisas que nem conseguimos imaginar. Por isso, repito: você precisa experimentar um Natal verdadeiro e transformador! Deixe que Jesus Cristo, em toda a Sua glória, faça morada em você!

Quando Cristo habita em nós

Mas o que realmente significa a entrada de Jesus Cristo em nossa vida para nos preencher com Sua presença? Qual é o efeito disso? Quando isso acontece – por menor e insignificante que você se sinta – você se torna um fator determinante neste mundo! Jesus Cristo disse: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte” (Mt 5.14). 

Pessoas nas quais Jesus vive em Sua plenitude serão capazes de mover o mundo! E nem é possível que seja diferente, pois a Escritura diz a respeito dEle: “Ele, que é o resplendor da glória [do Pai] e a expressão exata do seu Ser [do Pai], sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder...” (Hb 1.3). E em Hebreus 4.14 lemos que Jesus “penetrou os céus”. O Apocalipse diz até que Ele é a “lâmpada” do céu (Ap 21.23). Imagine: toda essa glória deseja morar em você, quer preencher você! Em relação a isso, Paulo diz: “...Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1.27). E: “...Cristo vive em mim” (Gl 2.20). O próprio Jesus nos diz: “...eu neles” (Jo 17.23).

Você não quer que Jesus Cristo, Aquele “cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”, venha habitar em sua vida? Então você influenciará o mundo do ponto de vista espiritual; então “tudo mudará”: você será uma pessoa marcada pela escrita de Deus. Então, em e por meio de Cristo, você se tornará um verdadeiro bastião de força e poder!

O ponto que realmente interessa

Toda a teoria e o conhecimento bíblico não servem para nada se você não der o passo decisivo. Portanto, a pergunta mais importante é: você já aceitou Jesus Cristo em sua vida? Você é um filho de Deus, remido pelo sangue do Cordeiro?

Mas toda a teoria e o conhecimento bíblico não servem para nada se você não der o passo decisivo. Portanto, a pergunta mais importante é: você já aceitou Jesus Cristo em sua vida? Você é um filho de Deus, remido pelo sangue do Cordeiro?

Talvez você nem consiga responder a essa pergunta por que nem sabe como fazer para entregar sua vida a Jesus. Bem, em primeiro lugar é preciso encarar a verdade: você precisa de alguém que o salve de seus pecados! Pode ser que você pense: “Mas não sou uma pessoa tão ruim assim!” Provavelmente você tem razão, mas: você não resistirá diante de Deus nem se for a melhor pessoa do mundo. 

Como pessoa nascida neste mundo, você automaticamente carrega consigo a condição perdida e pecadora deste mundo. E você não conseguirá se livrar dela até que tenha se rendido a Jesus! Você nem precisa cometer grandes pecados! Basta permanecer como está – e você se perderá! A Bíblia diz a esse respeito: “Não há justo, nem um sequer... todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis” (Rm 3.10,12). Ela está retratando a absoluta perdição do ser humano.

Talvez você seja muito fiel à sua igreja. Mas nenhuma igreja, nenhum papa e nem o melhor pregador ou o conselheiro mais talentoso estão em condições de salvá-lo. Não, você precisa aceitar Jesus! E como isso funciona? Aceite que a Sua morte sacrificial na cruz do Gólgota é totalmente válida para remir os seus pecados. 

A Escritura diz: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 Jo 1.9). Então repita a seguinte oração (ou outra semelhante): “Senhor Jesus, sou um pecador e sem Ti estarei eternamente perdido. Aceito agora o Teu sangue remidor e peço-Te perdão pelos meus pecados. Senhor, aceita-me para sempre e eternamente”.

Se você disser isso com sinceridade, o próprio Senhor fará o restante, como está escrito: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (Jo 1.12). Permita que hoje Jesus Cristo venha habitar em você!

(Marcel Malgo - http://www.chamada.com.br)
Publicado anteriormente na revista Chamada da Meia-Noite, dezembro de 2007.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

PRETERISMO E ZACARIAS 12 - 14

Preterismo e Zacarias 12 -14
Há algum tempo ministrei um curso sobre Escatologia (profecia bíblica) no Chafer Theological Seminary (Seminário Teológico Chafer, na cidade de Orange, California/EUA). Como o preterista* Ken Gentry mora perto do Seminário Chafer, eu o convidei a vir para falar à classe. Apesar do Seminário Chafer ser uma escola dispensacionalista, achei que seria saudável expor os alunos a uma posição oposta aos nossos pontos de vista, através da visita do Dr. Gentry. O Dr. Gentry foi bastante cortês em vir e nos dar uma apresentação de sua visão preterista do livro de Apocalipse.

Levantando a questão

Durante um tempo de perguntas, indaguei-lhe sobre a relação entre Zacarias 12-14 e o preterismo. Primeiro lhe perguntei se, como preterista, ele acreditava que Zacarias 12-14 era uma passagem paralela ao “Sermão Profético” de Jesus (Mt 24-25; Mc 13; Lc 21.5-36). Ele disse que concordava. Observei, então,  que Zacarias fala de “todos os povos” (Zc 12.2), “contra ela, (Jerusalém) se ajuntarão todas as nações da terra” (Zc 12.3), e “eu ajuntarei todas as nações para a peleja contra Jerusalém” (Zc 14.2). 

Argumentei que esses versículos não pareciam estar falando dos romanos em 70 d.C. Mais adiante, Zacarias continua dizendo: “Naquele dia o Senhor protegerá os habitantes de Jerusalém” (Zc 12.8) e: “Então sairá o Senhor e pelejará contra as nações, como pelejou no dia da batalha” (Zc 14.3). 

Concluí que tudo isso não se encaixa com o que aconteceu a Jerusalém em 70 d.C., quando os romanos conquistaram Israel. Finalmente, a passagem diz que o Senhor salvará Israel naquele dia (Zc 14.3), ao passo que, em 70 d.C., o Senhor julgou Israel como está escrito em Lucas 21.20-24. Perguntei ao Dr. Gentry: “Como os preteristas podem dizer que Zacarias fala de 70 d.C. se, nessa passagem, o Senhor está salvando o Seu povo?”

Posição preterista

É importante lembrar que o Dr. Gentry é um dos mais importantes preteristas do planeta. Sua resposta, em resumo, foi dizer que a Igreja havia substituído Israel. Isso é parecido com o que o falecido David Chilton disse em seu comentário preterista sobre o Apocalipse:
Outra passagem paralela a essa é Zacarias 12, que retrata Jerusalém como um cálice de tontear para todos os povos (Zc 12.2; cf. Ap 14.8-9), um braseiro ardente que consumirá os pagãos (Zc 12.6; Ap 15.2). A ironia é que no Apocalipse, como temos visto repetidamente, o próprio Israel do primeiro século tomou o lugar das nações pagãs nas profecias, sendo consumido no braseiro ardente – o Lago de Fogo – enquanto a Igreja, tendo passado pelo holocausto, herda a salvação.[1]
“Naquele dia o Senhor protegerá os habitantes de Jerusalém” (Zc 12.8).

Interpretando o texto

Falei ao Dr. Gentry que sua resposta não passava de “divagação teológica”. Ele havia chegado a uma mera conclusão teológica sobre o assunto, mas tinha falhado em dar uma interpretação textual. Perguntei-lhe objetivamente: “O senhor pode dar uma interpretação textual dessa passagem em Zacarias?” Ele respondeu: “Não”.
Os preteristas não conseguem dar uma interpretação textual de Zacarias 12-14 porque acreditam que a passagem se refere ao julgamento de Deus sobre Israel através dos romanos em 70 d.C. – o que é seu primeiro erro. Greg Beale diz: “Zacarias 12 não profetiza o julgamento de Israel e, sim, a sua redenção”.[2] Zacarias 12-14 fala claramente de um tempo quando Israel será salvo pelo Senhor de um ataque de “todas as nações da terra”, não somente dos romanos – e esse é o segundo erro. 

Nesse contexto, evidentemente, “Israel” tem de ser uma referência a Israel (e não à Igreja). Como essa é a verdade, o evento de Zacarias 12-14 ainda não aconteceu na História. Isso significa que se trata de um evento futuro. O Dr. Beale faz um comentário sobre Daniel que se aplica também a Zacarias:
O ônus da prova recai sobre os preteristas, para que forneçam um raciocínio exegético, tanto no que diz respeito a trocarem uma nação pagã por Israel como objeto principal do julgamento final de Daniel, como por limitarem o julgamento final principalmente a Israel e não o aplicarem universalmente.[3]

A posição textual (futurista, bíblica)

Tanto os preteristas quanto os futuristas (como eu) acreditam que em Lucas 21.20-24 Jesus profetizou a destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C. Usando Lucas 21.20-24 como base, observe os contrastes entre essa passagem e Zacarias 12-14, conforme observado por Randall Price:

Contrastes entre Lucas 21.20-24 e Zacarias 12-14

Lucas 21.20-24:
  • Cumprimento passado: “levados cativos para todas as nações” (Lc 21.24).
  • Dia da devastação de Jerusalém (Lc 21.20).
  • Dia de vingança contra Jerusalém (Lc 21.22).
  • Dia de ira contra o povo judeu (Lc 21.23).
  • Jerusalém pisada por gentios (Lc 21.24).
  • Tempo de domínio dos gentios sobre Jerusalém (Lc 21.24).
  • Grande aflição na terra (Lc 21.23).
  • Israel cairá a fio da espada (Lc 21.24).
  • Jerusalém destruída (70 d.C.) “para se cumprir [no futuro] tudo o que está escrito” [em relação ao povo judeu] (Lc 21.22).
  • A desolação de Jerusalém tem um limite de tempo: “até que os tempos dos gentios se completem” (Lc 21.24). Isso significa que haverá um tempo de restauração para Jerusalém.
  • O Messias virá com poder e grande glória para ser visto pelo povo judeu somente depois “destas coisas” – os eventos de Lucas 21.25-28 – que são posteriores [futuros] aos acontecimentos de Lucas 21.20-24.
Zacarias 12-14:
  • Cumprimento escatológico – “naquele dia” (Zc 12.3,4,6,8,11; 13.1-12; 14.1,4,6-9).
  • Dia de livramento para Jerusalém (Zc 12.7-8).
  • Dia de vitória para Jerusalém (Zc 12.4-6).
  • Dia de ira contra as nações gentias (Zc 12.9; 14.3,12).
  • Jerusalém transformada por Deus (Zc 14.4-10).
  • Tempo de submissão dos gentios em Jerusalém (Zc 14.16-19).
  • Grande libertação para a terra (Zc 13.2).
  • As nações trarão suas riquezas para Jerusalém (Zc 14.14).
  • Jerusalém salva e redimida, para que tudo que está escrito [em relação ao povo judeu] possa se cumprir (Zc 13.1-9; Rm 11.25-27).
  • O ataque a Jerusalém é a ocasião para a destruição final dos inimigos de Israel, encerrando, assim, “o tempo dos gentios” (Zc 14.2-3,11).
  • O Messias virá em grande poder e glória durante os eventos da batalha (Zc 14.4-5).[4]
Em razão das diferenças apontadas entre as passagens, é impossível harmonizar Zacarias 12-14 com eventos que já aconteceram. Trata-se de uma tentativa que agride a lógica. Mas algumas das maiores sumidades do preterismo continuam insistindo nesse absurdo.
Alto-relevo no Arco de Tito que mostra os romanos conduzindo os utensílios
do templo em triunfo (70 d.C.)
.

Israel e as nações

O preterista Gary DeMar recentemente tentou uma interpretação de Zacarias 14.[5] Como era de se esperar, ele disse que Zacarias 14 “descreve eventos que antecedem a devastação e, inclusive, a própria destruição de Jerusalém em 70 d.C.”[6] DeMar não consegue mostrar a destruição de Jerusalém no texto de Zacarias. 

Ele interpretou a passagem de uma forma que eu chamaria de abordagem temática. Ele “pulou” e “dançou” em torno da passagem, desnudando-a do seu contexto. Pior ainda, ele a reembalou num falso contexto. Analisando apenas Zacarias 14, DeMar falha em oferecer qualquer evidência de que Deus está submetendo Israel ao juízo, como é claramente perceptível em Lucas 21.20-24.

Na verdade, Deus está julgando as nações, pois o texto diz: “Procurarei destruir todas as nações que vierem contra Jerusalém” (Zc 12.9), e: “Eu ajuntarei todas as nações para a peleja contra Jerusalém... sairá o Senhor e pelejará contra essas nações” (Zc 14.2-3). Ao contrário do que diz DeMar, Deus está defendendo (Zc 12.8) e salvando (Zc 14.3) Israel dessas nações. 

Exatamente como em Mateus 24, em nenhum lugar o texto fala do Senhor vindo em julgamento contra o Seu povo. Tanto Zacarias quanto Mateus estão falando da salvação de Israel (Mt 24.31), e é por isso que o cumprimento das profecias de ambas as passagens será no futuro.

Conclusão

A única maneira que os preteristas encontram para lidar com Zacarias 12-14 é não considerar as palavras e frases no seu contexto literário, mas simplesmente declarar – como fizeram Chilton e Gentry – que a Igreja substituiu Israel. 

O texto das Escrituras deve ser a base sobre a qual desenvolvemos a sã teologia. Ao invés disso, os preteristas impõem suas crenças teológicas falsas sobre a Palavra infalível de Deus. Walt Kaiser é muito feliz ao fazer o seguinte comentário sobre o texto de Zacarias:

Em nenhum outro capítulo da Bíblia a interpretação de “Israel” é mais importante do que em Zacarias 14. Dizer que “Israel” significa a “Igreja”, como muitos têm feito, levaria a uma grande confusão nesse capítulo e no final do capítulo 13. Por exemplo, Zacarias 13.8-9 afirma que dois terços de toda a terra (Israel) morrerão, mas poucos se arriscam a dizer que dois terços da Igreja sofrerão um massacre no dia final. É muito claro que “Israel” se refere à unidade geopolítica atualmente conhecida como o Estado de Israel.[7]

A Palavra de Deus exorta Sua Igreja a viver na expectativa de um futuro seguro e na certeza da vitória. Mantendo essa perspectiva, os crentes podem viver confiantes no presente por causa do futuro. O passado é igualmente importante. No entanto, uma falsa visão do passado roubará do crente, no presente, a esperança de que precisamos para viver corajosamente para o nosso Senhor. Maranata! 

Notas:

  1. David Chilton, The Days of Vengeance: An Exposition of the Book of Revelation (Fort Worth: Dominion Press, 1987), pp. 385-86.
  2. G.K. Beale, The Book of Revelation: A Commentary on the Greek Text (Grand Rapids: Eerdmans, 1999), p. 26.
  3. Beale, Revelation, p. 45.
  4. Randall Price, Charting the Future (San Marcos, Tex.: gráficos com publicação privada), n.p.
  5. Gary DeMar, Last Days Madness: Obsession of the Modern Church (Atlanta, American Vision: 4th edition, 1999), pp. 437-43.
  6. DeMar, Madness, p. 437
  7. Walter C. Kaiser, The Communicator’s Commentary: Micah-Malachi (Dallas: Word, 1992), p. 417.
* Os preteristas ensinam que a maior parte, ou até mesmo todas as profecias já se cumpriram. Eles dizem que as principais porções proféticas das Escrituras (como o Sermão Profético e o livro de Apocalipse) se cumpriram nos eventos relacionados à destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d. C.
Publicado anteriormente na revista Notícias de Israel, Fevereiro de 2002.
 
Postado por Roberto
Fonte. apaz.com.br
Abraço