domingo, 27 de junho de 2010

A TRAGÉDIA DA VIDA DESPERDIÇADA

A Tragédia da Vida Desperdiçada 

A "ASSOCIATED PRESS" publicou recentemente uma interessante e algo deprimente história londrina sobre certo magnata britânico que tinha morrido poucos dias antes de completar oitenta e nove anos de idade.

Tendo sido homem de recursos e de posição, é de presumir que não tivera necessidade de trabalhar para viver como os demais seres humanos como nós. Assim, por ocasião da sua morte, ele tivera cerca de setenta anos de vida adulta em que fora livre para fazer o que quisesse, seguir a carreira que desejasse ou trabalhar em qualquer coisa que julgasse digna das suas consideráveis capacidades.

E que resolveu fazer? Bem, de acordo com a narrativa, "dedicou sua vida à tentativa de produzir o rato mosqueado perfeito".

Pois bem, admito que todo homem tem direito de criar ratos mosqueados, se o desejar e conseguir a cooperação dos ratos, e francamente declaro que tal decisão é problema dele, não meu. Não sendo aficionado a ratos (nem inimigo deles, neste sentido; sou simplesmente neutro), não sei sequer em que um rato mosqueado pode ser mais útil e vir a ser um rato de estimação mais afetuoso que um rato da cor do rato comum. Mas continuo em dificuldade.

O criador de ratos em questão era um senhor aristocrático, enquanto eu nasci numa fazenda no montanhoso interior da Pensilvânia, mas, desde que um gato pode mirar um rei, suponho que um rapaz do campo também pode mirar um senhor da alta, e até mirá-lo com desaprovação, se as circunstâncias lho permitirem; assim, não posso senão condoer-me do meu irmão de além-mar.

Criado à imagem de Deus, equipado com formidáveis poderes mentais e espirituais, chamado para ter sonhos imortais e aprofundar-se nos imensos pensamentos da eternidade, ele escolhe como razão da sua existência a criação de um rato mosqueado. Convidado para andar com Deus na Terra e para habitar com os santos e os anjos no mundo das alturas excelsas; chamado para servir à sua geração pela vontade de Deus, para, com santo vigor, ir atrás do alvo pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus, ele dedica a sua vida ao rato mosqueado – não apenas noites e feriados, note bem, mas sua vida inteira. Sem dúvida, esta é uma tragédia digna da mente de um Ésquilo ou de um Shakespeare.

Esperemos que a história não seja verdadeira ou que os repórteres a tenham exagerado, como às vezes fazem; mas, mesmo que a coisa toda seja uma burla, ainda aponta para uma perfeita tragédia humana que está sendo levada ao palco diariamente diante de nossos olhos, não por atores teatrais do faz-de-conta, mas por homens e mulheres reais que são os personagens que eles representam. Deveriam eles estar preocupados com o pecado, a justiça e o juízo; deveriam preparar-se para morrer e reviver; mas, em vez disso, passam os seus dias criando ratos mosqueados.

Se o certo é ter uma visão espiritual do mundo, como o cristianismo afirma destemidamente que é, então, para cada um de nós, o Céu é mais importante que a Terra, e a eternidade é mais importante que o tempo. Se Jesus Cristo é quem ele se arrogava ser; se ele é o que o glorioso colégio apostólico e o nobre exército de mártires declararam que é; se a fé que a santa igreja por todo o mundo subscreve é a verdadeira fé bíblica e cristã, então nenhum homem tem direito de dedicar sua vida a qualquer coisa que possa queimar-se ou enferrujar-se ou apodrecer ou morrer. Nenhum homem tem direito de se dar completamente a ninguém, senão a Cristo, e a nada, senão à oração.

O homem que não sabe onde está, está perdido; o homem que não sabe por que nasceu está mais gravemente perdido; o homem que não consegue achar um objeto digno da sua fiel devoção está completamente perdido; e, segundo esta descrição, a raça humana está perdida – e uma parte da nossa condição de perdidos consiste em que não sabemos quão perdidos estamos. Daí, usamos os poucos e preciosos anos de vida que nos cabem por sorte para criar ratos mosqueados. Não da espécie que foge e guincha, talvez; mas, examinadas à luz da eternidade, as nossas minúsculas atividades humanas, em sua maioria, não são quase igualmente insignificantes?

Uma das glórias do Evangelho cristão é seu poder, não só de libertar do pecado o homem, mas também de orientá-lo, colocá-lo no alto de um pico do qual ele pode ver o ontem e o hoje em sua relação com o amanhã. A verdade limpa a sua mente, de modo que ele pode reconhecer as coisas que de fato importam e ver o tempo e o espaço, reis e repolhos em sua verdadeira perspectiva. O cristão iluminado pelo Espírito não pode ser enganado. Ele sabe o valor das coisas; ele não investe num arco-íris nem faz pagamento à vista por uma miragem; em resumo, ele não devota a sua vida a ratos mosqueados.

Por trás de cada vida desperdiçada, está uma filosofia ruim, uma errônea concepção do valor e do propósito da vida. O homem que acredita que nasceu para conseguir tudo que puder para si passará a vida toda tentando consegui-lo; e o que quer que consiga será apenas uma gaiola de ratos mosqueados. O homem que acredita que foi criado para gozar os prazeres da carne dedicar-se-á à busca de prazer; e se, por uma combinação de circunstâncias favoráveis, ele consegue extrair da vida muita diversão, os seus prazeres acabarão virando cinza em sua boca. Tardiamente verá que Deus o criou com demasiada nobreza para satisfazer-se com aqueles sensacionais, mas falsos prazeres a que devotara a sua vida cá debaixo do sol.


Extraído de: “Homem: Habitação de Deus”, A.W.Tozer, Editora Mundo Cristão.

por A. W. Tozer
Postado por Roberto
Fonte: Revista Impacto
Abraço

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A VOCAÇÃO DE UM PASTOR

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Citações de Eugene Peterson 

“A vocação de um pastor tem a ver com viver as implicações da Palavra de Deus numa comunidade, sem velejar pelos mares exóticos da religião em busca de fama e fortuna.” 
PETERSON, Eugene – A vocação espiritual do pastor. 1ª. Edição, São Paulo: Mundo Cristão, 2006. pág. 29  

“Os pastores estão abandonando seus postos, se desviando para a direita e a esquerda, com freqüência alarmante. Isso não quer dizer que estejam deixando a Igreja e sendo contratados por alguma empresa. As congregações ainda pagam seus salários, o nome deles ainda consta no boletim dominical e continuam a subir ao púlpito domingo após domingo. O que estão abandonando é o posto, o chamado. Prostituíram-se após outros deuses. Aquilo que fazem e alegam ser ministério pastoral não tem a menor relação com as atitudes dos pastores que fizeram a história nos últimos vinte séculos.”
PETERSON, Eugene Um pastor segundo o coração de Deus. 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2000. Pág. 1 

“Os pastores se transformaram em um grupo de gerentes de lojas, sendo que os estabelecimentos comerciais que dirigem são as igrejas. As preocupações são as mesmas dos gerentes: como manter os clientes felizes, como atraí-los para que não vão às lojas concorrentes que ficam na mesma rua, como embalar os produtos de forma que os consumidores gastem mais dinheiro com eles.” PETERSON, Eugene Um pastor segundo o coração de Deus. 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2000. Pág. 2 

“Alguns pastores são ótimos gerentes, atraindo muitos consumidores, levantando grandes somas em dinheiro e desenvolvendo uma excelente reputação. Ainda assim o que fazem é gerenciar uma loja. Religiosa, mas, de toda forma, uma loja. Esses empreendedores têm sua mente ocupada por estratégias semelhantes às de franquias de fast-food e, quando dormem, sonham com o sucesso que atrai a atenção da mídia.”
PETERSON, Eugene Um pastor segundo o coração de Deus. 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2000. Pág. 2 

“A pergunta opera subliminarmente, moldando meu comportamento: o que as pessoas querem de mim, seu pastor? Certamente, algo que seja acompanhado de uma vida melhor: encorajamento, percepção, consolo, fórmulas que os capacitem a viver melhor em um mundo difícil, que os leve a um nível mais alto (um amigo meu chama isso de “teologia do sutiã”). É claro que estamos condicionados a ceder. Por que não agradaríamos àqueles que pagam nossos salários, se podemos fazê-lo e manter nossa consciência tranqüila? E por que nossas consciências não estariam tranqüilas, se nossas ações são ratificadas pelo voto, em todas as congregações por onde passamos? Esse consumismo molda-nos sem que nos demos conta. Não há área em nossas vidas que não seja afetada, de uma forma ou outra, pelo consumismo.” 
PETERSON, Eugene Um pastor segundo o coração de Deus. 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2000. pág 90 

“Não conheço outra profissão em que seja tão fácil fingir como a nossa. Existem comportamentos que podemos adotar para sermos considerados, sem nenhum questionamento, conhecedores de mistérios: ter um porte reverente, cultivar uma voz impostada, introduzir em nossas conversas e palestras palavras eruditas em quantidade suficiente apenas para convencer os outros de que nosso treino mental está um pouco acima do que o da congregação.”
PETERSON, Eugene Um pastor segundo o coração de Deus. 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2000. pág 5  

“O líder religioso é o mais indigno de confiança dentre todos os líderes; em nenhuma outra posição temos tantas oportunidades de exercer orgulho, ambição, cobiça, nem tantas máscaras diferentes ao nosso alcance para impedir que tal ignomínia seja descoberta e confrontada.”
PETERSON, Eugene A vocação espiritual do pastor. 1ª. Edição, São Paulo: Mundo Cristão, 2006. pág. 25 

“O trabalho pastoral consiste de tarefas modestas, diárias e determinadas. É como o trabalho de um fazendeiro. O trabalho pastoral envolve rotinas semelhantes a limpar o curral, o estábulo, coletar o esterco, e arrancar as ervas daninhas. Isto não é, em si, um trabalho ruim, mas, se esperamos cavalgar diariamente num desfile, num imponente cavalo preto, e voltar para um estábulo limpo onde um empregado escova e alimenta nossa montaria, ficaremos extremamente desapontados e viveremos cheios de horríveis ressentimentos.” 
PETERSON, Eugene – A vocação espiritual do pastor. 1ª. Edição, São Paulo: Mundo Cristão, 2006. pág. 26 

“Esse encantamento artificial da paróquia é pornografia eclesiástica — tirando fotos ou pintando quadros de congregações que não têm mancha ou mácula, algo que só existe em umas poucas paróquias alguns curtos anos. Estes quadros exibidos de maneira provocante não possuem relacionamentos pessoais. Os quadros atiçam a cobiça por domínio, gratificação e por uma espiritualidade impessoal e sem envolvimento. Minha própria imagem de uma congregação desejável era lapidada por tal pornografia - um templo com uma torre alta e uma congregação banal. Fico espantado e alarmado que, mesmo tendo parado há muito de olhar as revistas e cartazes nas paredes da minha imaginação vocacional, ainda estou vulnerável à sedução.” 
PETERSON, Eugene – A vocação espiritual do pastor. 1ª. Edição, São Paulo: Mundo Cristão, 2006. pág. 31 

“A religião norte-americana é basicamente uma religião de consumo. Os norte-americanos vêem Deus como um produto que irá ajudá-los a viver bem ou melhor. Movidos por essa visão, eles fazem o que consumidores em geral fazem: procuram a melhor oferta. Pastores, que mal vêem o que estamos fazendo, começam a fazer acordos, “marketizando” a linha de produtos de Deus a fim de atrair as pessoas e depois criar maneiras de superar os que competem pelo mercado. A religião nunca esteve tão envolvida com relações públicas, com a imagem diante do público, vendas, técnicas de propaganda e marketing e espírito competitivo. Pastores que crescem nesta atmosfera não vêem nada de errado nessas práticas. É o bom e velho sistema de livre empreendimento que funciona tão bem para todos, exceto os pobres e algumas minorias.” 
PETERSON, Eugene – A vocação espiritual do pastor. 1ª. Edição, São Paulo: Mundo Cristão, 2006. pág. 43 

E chega a ser duro com os pastores quando comenta que:
“Uma porcentagem assustadoramente alta de pastores colabora com o inimigo, um mundo que quer uma religião que seja mais do que tudo, mero entretenimento com algumas pausas para comerciais morais.” 
PETERSON, Eugene – A vocação espiritual do pastor. 1ª. Edição, São Paulo: Mundo Cristão, 2006. pág. 44  

“O trabalho pastoral pega a religião pela mão e a leva à vida cotidiana, apresentando-a aos amigos, vizinhos e colegas. Se deixada à própria sorte, ela será envergonhada, introvertida e individual. Ou, então, decorativa e orgulhosa como uma prima-dona. Mas ela não é pessoal nem insignificante. O pastor insiste em levá-la aonde ela tem que se misturar com a multidão. Quando não se dá a devida atenção ao trabalho pastoral, a religião tende, em alguns ambientes, a se transformar em cerimônias de ostentação e, em outros, em casulos de emoções pessoais. Em qualquer uma das situações, ela continua positiva em muitos aspectos: a teologia pode ser profunda, as meditações intensas, os conselhos morais sábios e as liturgias magníficas, mas, até que se insira na arena da vida comum, ela não será vida com boas-novas nem terá oportunidade para colocar os pensamentos e as crenças em prática para testar se são verdadeiros dentro da vida das pessoas.” 
PETERSON, Eugene - O pastor que Deus usa. 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2003. pág.13 

“O pastorado correto, assim como todos os ministérios cristãos, toma como fonte a Bíblia. Mas a literatura dirigida aos pastores tem sido dominada, pelo menos nas duas últimas gerações, pelas perspectivas estabelecidas pelas ciências de comportamento que surgiram recentemente. Vivemos num século de mudanças rápidas, onde a análise racional leva a concluir que, já que tanto do que encontramos é inédito e o conhecimento e a tecnologia vêm dando saltos tão grandes, nada do que funcionava antigamente poderá funcionar agora. O pensamento corrente diz-nos que é necessário nos atualizarmos o tempo todo e que precisamos de voltar a estudar para adquirir as últimas informações e dominar as novas técnicas, se é que desejamos ser pastores dos dias que virão. Desenvolve-se hoje uma tendência de se respeitar pouco o passado e conhecer, cada vez menos, dele.” 
PETERSON, Eugene - O pastor que Deus usa. 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2003. pág. 14 

“Ao pastorado constitui qualidade inerente combinar dois aspectos do ministério: um, apresentar a palavra eterna e a vontade de Deus e dois, cumprir a primeira tarefa no meio das idiossincrasias do local e das pessoas (o verdadeiro lugar onde o pastor vive, aspessoas específicas com quem convive). Se qualquer um desses dois aspectos for desprezado, não acontece um bom pastorado. O ofício pastoral em sua melhor forma narra e exibe as trocas da graça descritas na Bíblia, entre Deus, que “é o mesmo, ontem, hoje e para sempre”, e o ser humano, que herda o pecado de Adão e vivencia a salvação através do novo Adão.” 
PETERSON, Eugene - O pastor que Deus usa. 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2003. Pág.18 

“Algumas vezes, penso que tudo que faço como pastor é falar a palavra "Deus" em uma situação na qual ela nunca foi dita antes, onde as pessoas não reconheceram a Sua presença. Alegria é a capacidade de ouvir o nome e reconhecer que Deus está aqui.  Há uma espécie de regozijo porque Deus está agindo, e, mesmo que seja algo pequeno, isso basta no momento.” 
PETERSON, Eugene - O pastor contemplativo. 2ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2004. pág. 15 

“Às vezes nos reduzem a profissionais simpáticos, nos transformam em réplicas de nossos líderes culturais, aqueles que procuram o poder, a influência e o prestígio. Essas vozes insistentes ressoam em nossos ouvidos, dizendo a nós, pastores, que devemos competir com os executivos bem sucedidos e os artistas que obtiveram o maior sucesso, para que possamos colocar nossas igrejas no mapa e fazer com que elas sejam grandes perante o mundo.” 
PETERSON, Eugene – O pastor desnecessário. 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2001. pág 1 

Ele diz ainda:
“É obrigação dos pastores manter clara a distinção entre as mentiras do mundo e a verdade do evangelho. É claro que essa tarefa não se restringe aos pastores. Ela abrange todos os que são batizados. No entanto, os pastores estão em uma posição estratégica, que vai contra a cultura. Nosso lugar na sociedade é, sob certos aspectos, único: não há quem ocupe outra posição tão inofensiva na aparência e, no fundo, tão perigosa para o status quo. Nosso compromisso é manter viva a proclamação e olhar pelas almas, apesar de vivermos em uma era em que as pessoas ou negam a existência da alma ou transformam em assunto banal tudo que se relaciona com ela.

Mas não é fácil. Há forças poderosas, algumas sutis e outras óbvias, que tentam domar os pastores e levá-los a servir a cultura da forma como ela é. Outras forças tentam nos induzir a usar nossa posição para ser poderosos e importantes de acordo com os padrões do mundo. Assim, precisamos de toda a ajuda que possamos conseguir para manter nossa identidade do evangelho.”
PETERSON, Eugene – O pastor desnecessário. 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2001. pág. 2 

“Os pastores fazem tantas provas, ouvem tantas palestras, lêem muitos livros, e têm tanta experiência com a matéria prima da verdade – morte, luto, sofrimento, celebração, culpa, amor – que assumem com facilidade a postura de onisciência.”

PETERSON, Eugene – Um pastor segundo o coração de Deus. 1ª. Edição, Rio de Janeiro: Textus, 2000. pág 173

por Eugene Peterson
Postado por Roberto
Fonte: Revista Impacto
Abraço

QUANDO LÍDERES IMPLODEM

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Quando Líderes Implodem 

Mesmo sendo em outro país, dentro de contextos nem sempre idênticos à nossa realidade brasileira, escândalos com líderes cristãos respeitados e proeminentes sempre afetam, de uma forma ou de outra, a igreja como um todo. Quando Ted Haggard, presidente da “National Association of Evangelicals” (NAE) e pastor da giga-igreja “New Life Community”, em Colorado Springs, EUA, foi acusado, no início de novembro de 2006, de envolvimento com um garoto de programa e de ter comprado metanfetaminas (tipo de entorpecente), a mídia do mundo inteiro se deleitou com a notícia. A seguir, uma análise de Gordon MacDonald, um dos editores da revista “Leadership (do grupo “Christianity Today”), sobre qual deve ser nossa atitude diante desse tipo de acontecimento e o que podemos aprender dele. 

É com indescritível dificuldade que temos visto o nome e o rosto de Ted Haggard arrastados na lama em um noticiário da TV após outro. Ainda estamos em processo de apurar exatamente o que transcorreu na vida secreta de Ted durante esses últimos meses. Poucas horas após a revelação, a liderança da New Life Church anunciou que havia solicitado sua renúncia. Seu ministério na liderança daquela igreja e na NAE acabou.

Tenho passado um longo tempo na minha vida tentando compreender por que alguns homens e mulheres em todo tipo de liderança se enredam em perigosas armadilhas, sejam elas causadas por problemas morais ou financeiros, sejam pelo abuso de poder e egolatria. Pessoalmente, não sou um novato nas áreas de fracasso e humilhação pública. Desde aqueles terríveis momentos pelos quais passei há vinte anos, comecei a acreditar que em muitos de nós existe um eu mais profundo que não difere muito de um assassino. 

Esse eu mais profundo (como um contencioso membro da diretoria) pode ser uma fonte de atitudes e comportamentos que repugnam a nossa mente consciente. Seu objetivo é destruir-nos e ele consegue lançar mão de enormes energias, as quais, se não forem impedidas, poderão levar-nos a fazer as próprias coisas que abominamos. Se você já foi queimado de forma tão avassaladora como eu  fui – junto com meus queridos –, com certeza, jamais passa um só dia sem lembrar que existe algo lá dentro que, se não for vigiado, se soltará com força violenta e arrasadora. Wallace Hamilton escreveu certa vez que “dentro de cada um de nós existe uma manada de cavalos selvagens, só esperando a chance de correr soltos”. 

Parece-me que quando uma pessoa se torna líder de uma grande organização ou movimento, quando se torna famosa e suas opiniões são constantemente solicitadas pela mídia, ela entra numa posição extremamente vulnerável. A própria força que impulsiona o líder a obter conquistas extraordinárias é o ímpeto que, muitas vezes, o leva a buscar níveis sempre maiores, mesmo depois de atingir objetivos e metas razoáveis. Como um rio que rompe seus diques, esse ímpeto costuma se enveredar atrás de sensações ou empolgações que podem ser extremamente perigosas e destrutivas.

Por vezes, o ímpeto parece indomável. É o que parece ter ocorrido, no Velho Testamento, com Davi e seu olhar erradio, com Uzias em seu tédio e com Salomão em sua insaciável fome de riquezas, mulheres e cavalos. Parece que buscavam – compulsivamente, talvez – novas emoções ou satisfações para suas necessidades pessoais mais profundas, pois os meios normais, satisfatórios para a maioria, já não lhes bastavam mais. 

Quando vejo um líder ficar teimoso e rígido, cada vez menos compassivo com seus adversários, cada vez mais tirânico dentro de sua própria organização, suscitando ódio e arrogância nos outros, fico pensando se ele não está gerando todo esse calor por estar tentando desesperadamente dizer “não” a algo que tenta irromper do mais profundo de sua própria alma. Não seriam suas palavras e atos dirigidos menos a algum inimigo “externo” que a um inimigo muito mais astuto que mora em sua própria alma? Mais de uma vez, presenciei pastores, que haviam passado horas imersos em pornografia, subirem ao púlpito um ou dois dias depois para pregar seus sermões “mais ungidos” contra a imoralidade. Eis uma contradição para dar nó em qualquer mente racional. 

Não há praticamente nenhuma forma de “cobertura”, mentoria ou sistema de prestação de contas que parece ser capaz de conter uma pessoa mergulhada em um tal conflito interno. Nem conseguirá conter uma pessoa que requer doses cada vez maiores de adrenalina para superar os picos alcançados ontem. Uma das mais incríveis habilidades de Jesus talvez tenha sido a de saber quando parar, como recusar o coquetel de privilégios, fama e aplausos que distorce a capacidade humana de pensar com sensatez e de ter domínio próprio. 

Mais de uma vez, temos visto uma pessoa revelar os verdadeiros fatos de um acontecimento, não de uma só vez, mas aos poucos, de tal forma que cada confissão torna-se um reconhecimento de culpa sobre aquilo que fora negado apenas um ou dois dias antes. Talvez a incapacidade de falar toda a verdade seja um sinal de que a pessoa, de fato, está mentindo para si própria e não consegue encarar toda a verdade do comportamento errado em sua própria alma. 

Na realidade, todo pecado tem sua origem quando se mente a si mesmo. Algumas das mentiras cardeais que levam um líder a fracassar:

  • Dou tudo de mim nesse cargo, então mereço certos privilégios – talvez mesmo o privilégio de estar acima das normas.

  • Tenho charme suficiente e palavras convincentes para transformar o que eu quiser (até mesmo minha inocência) em realidade.

  • Vivo a maior parte da minha vida acima da linha de santidade, portanto posso ser perdoado por esse pequeno deslize.

  • Já fiz muito por essas pessoas; agora, está na hora de fazerem algo por mim – por exemplo, perdoar-me e dar-me uma segunda chance. 

Meu coração sangra por Ted Haggard, por sua esposa e sua família. Não posso imaginar a tortura pela qual estão passando agora. Despojados do mais alto conceito que possuíam junto à nação, numa questão de poucas horas, estão agora se ajustando à necessidade de descobrir quais são seus verdadeiros amigos. Estão perguntando em que medida esses fatos, espalhados pelo mundo inteiro, afetarão seus filhos. A Sra. Haggard não poderá ir ao supermercado sem imaginar quem encontrará pelo caminho (um repórter? um membro da igreja? um crítico?). Nos próximos dias, cada vez que o casal sair de casa, encontrará pela frente câmeras insistentes, até o dia em que a mídia encontre outra pessoa para servir-lhe de esporte. 

As viagens, as conexões importantes, as entrevistas, o aplauso da congregação, o poder institucional, os benefícios e privilégios, as honrarias – tudo isso já se foi! O acesso a pessoas de prestígio e poder – acabou-se! Foi-se também a oportunidade de depositar diariamente uma palavra de influência e peso nas vidas de pessoas mais jovens e tratáveis! 

No decorrer da sua jornada, talvez chegue o dia em que recuperarão uma parte do antigo prestígio. Mas, por ora, esse dia está – ou deve estar – bem distante. 

Tenho orado, entre outras coisas, para que a liderança da New Life Church não pense que a melhor forma de “restaurar” Ted seja levá-lo de volta ao púlpito o mais breve possível. O pior que poderiam fazer é alimentar suas esperanças de que basta reproduzir um bom modelo de arrependimento para poder logo, logo retornar à vida pública. Para seu próprio bem, ele precisa tomar muito tempo para analisar e resolver os fatores que causaram sua queda. Voltar a ministrar não o ajudará em nada a resolver o que quer que esteja errado em sua própria alma. Ele e sua esposa precisam separar um longo período a sós, a fim de permitir que seu relacionamento pessoal seja curado. O perdão traz cura, porém é um processo longo, não instantâneo.  

E então eu oro:  

Senhor Deus e Pai, como tu deves entristecer-te quando vês um dos mais poderosos e, ao mesmo tempo, mais fracos dos teus filhos cair na armadilha do pecado e do mal. Não há pecado algum que alguém tenha cometido que qualquer um de nós não seria capaz de cometer igualmente. Por isso, ao orarmos por nosso irmão Ted Haggard, não oramos com atitude de condescendência nem de justiça própria, mas com espírito de humildade, porque estamos juntos com ele exatamente no mesmo patamar diante da cruz.  

Pai, concede a esse homem, e a sua esposa, a dádiva da tua graça. Livra-os das acusações reiteradas do diabo, o qual procurará tirar-lhes o sono, os tentará a falar demais para o público e semeará discórdia entre os dois, como casal, e entre eles e seus filhos. Envia as pessoas certas ao encontro deles, que possam lhes oferecer a mistura certa de esperança e amor restaurador. Livra-os dos bajuladores, que lhes falarão o que não devem ouvir. Impede-os de tirar conclusões equivocadas em seus momentos mais difíceis. 

Senhor, ilumina os líderes e irmãos da New Life Church. E também a liderança da NAE, que terá de conviver com os efeitos colaterais dessa tragédia. Ilumina ainda os cristãos em toda parte que estão se perguntando em quem podem confiar. Por que mais podemos orar? O Senhor sabe todas as coisas. Nós, quase nada. Amém.


Traduzido e publicado de “Leadership Blog, Out of Ur”, 5/11/2006 (blog.christianitytoday.com/outofur), com permissão de Christianity Today International, Carol Stream, Illinois USA (www.christianitytoday.com)

por Gordon MacDonald
Postado por Roberto
Fonte: Revista Impacto
Abraço


O PERIGO DE HELIMINAR O INSTRUMENTO HUMANO

O Perigo de Eliminar o Instrumento Humano 

Para todo erro extremista, há outro erro, igualmente perigoso, no extremo oposto. Isso parece óbvio, mas na prática é muito difícil evitar esses erros do extremo oposto, pois as reações costumam dificultar uma visão mais equilibrada. Ao identificar a terrível e generalizada tendência humana de tomar a glória de Deus para si mesmo, poderíamos até concluir que, neste caso pelo menos, não existiria o outro extremo como perigo a evitar. Afinal, quanto mais o homem se ocultar e desaparecer para que somente Deus tenha liberdade de agir, não é melhor? Entretanto, usando o exemplo clássico de um avivamento do século passado, Rick Joyner mostra que aqui, também, existe o perigo do extremo oposto! 

Quase todo avivamento ou mover de Deus, tanto nas Escrituras quanto na história, foi iniciado pela instrumentalidade de um único indivíduo. Embora muitos outros possam ter sido importantes na preparação, na sustentação e na continuação do mover, Deus geralmente tem escolhido uma pessoa em particular como canal para conduzir seu povo a um novo passo no seu plano eterno.

Como bem sabem os que têm tomado o tempo para estudar os movimentos de Deus no passado, este, sem dúvida, tem sido um dos pontos mais vulneráveis no plano de Deus: muitos líderes e avivamentos têm naufragado justamente porque o instrumento humano tomou o lugar de Deus.

No avivamento do País de Gales, em 1904, porém, aconteceu justamente o contrário. O instrumento que Deus estava usando saiu de cena antes da hora, o que também causou um fim prematuro ao avivamento.

Uma Liderança Muito Discreta


Estamos referindo-nos, obviamente, a Evan Roberts. Embora não fosse um líder dinâmico, nem mesmo um bom pregador, ele era indiscutivelmente a centelha que Deus usou para acender o fogo naquele lugar.

Sua liderança era discreta e variava de acordo com a orientação de Deus para cada ocasião. Por vezes, entrava numa reunião, sentava-se à frente, mas não dizia nada por três horas. Depois, levantava-se, pregava e orava por uns dez ou quinze minutos e sentava-se de novo. Outras vezes, pregava o tempo todo ou orava o tempo todo. Com freqüência, ficava sentado em silêncio durante toda a reunião.

Evan Roberts não permitia que suas reuniões ou visitas a uma outra cidade fossem anunciadas com antecedência superior a um ou dois dias da sua chegada. Ainda assim, limitava-se a dizer que esperava estar num certo lugar a uma certa hora. Ele fugia de repórteres e temia a adulação. Muitas vezes, retirava-se das reuniões quando sentia que o povo havia vindo para ouvi-lo em vez de ao Senhor. Nas reuniões em que se sentiu o centro da atração, ele apelou com um coração angustiado para que as pessoas se voltassem para Cristo apenas, a fim de que o Espírito Santo não se retirasse.

Embora tivesse se tornado o pregador mais mencionado pela mídia daquele tempo, ele sempre se recusava ser entrevistado por repórteres vindos do mundo todo. Não se deixava fotografar, exceto pelos membros da sua família. Ele sabia que esse despertamento era de Deus e não dele mesmo e que, se as pessoas o idolatrassem, a glória seria removida. Ele nem mesmo respondia aos pedidos que vinham de editoras do mundo todo, querendo publicar a sua biografia. Seu grande temor era que, assentindo a essas coisas, poderia estar roubando uma pequena fração da glória que era devida somente ao Senhor.

Foi essa determinação de Roberts que manteve o povo com o foco centrado corretamente no Senhor e contribuiu para que eles pudessem continuar com a bênção da presença do Espírito por todo o tempo em que o avivamento foi dado.

O Erro de Anular o Instrumento Humano


Porém, como acontece com muitos líderes, sua maior força transformou-se em sua maior vulnerabilidade. Evan Roberts temia tanto a possibilidade de tomar a atenção que era devida apenas ao seu amado Senhor que, em 1906, ele atendeu ao conselho de Jessie Penn-Lewis e retirou-se definitivamente do ministério, passando a viver em reclusão o resto da sua vida. Ele nunca mais foi ativo no ministério, e o avivamento, em pouco tempo, arrefeceu-se.

Não há dúvidas de que Jessie Penn-Lewis era uma serva de Deus, usada pelo Senhor de várias maneiras, especialmente através dos seus escritos. Porém, no seu zelo de combater o foco do avivamento no homem, ela cometeu um grave erro: contribuiu para que o instrumento que Deus estava usando fosse anulado.

Alguns têm argumentado que, se tivesse sido um verdadeiro avivamento, a saída de um homem não teria feito nenhuma diferença. No entanto, as Escrituras e a história testificam de modo diferente. Por ter o Senhor dado sua autoridade aos homens, ele sempre olha para os homens que estão na brecha, quando deseja mover-se na Terra. Somente Deus pode acender o fogo do avivamento, mas ele se move através de homens.

Tal como João Batista, Evan Roberts recebeu o encargo de preparar o caminho do Senhor, apontar para ele e ter a disposição de diminuir enquanto ele crescesse. Entretanto, era importante que João não diminuísse antes de o Senhor crescer; este é o ponto em que muitos que estão buscando o mover de Deus falham.

O Senhor deu a João Batista uma unção que inflamou toda uma nação, de modo que tanto os grandes como os pequenos foram até ele. Somente depois de ter conquistado a atenção da nação é que ele apontou para aquele que é o maior. João teve que permitir que o Senhor o levantasse por algum tempo, ou ele não teria como cumprir o seu propósito.

É verdade que muitos que alcançam uma posição de destaque acabam querendo permanecer ali, não querendo diminuir ou ceder o espaço quando a presença do Senhor vem crescendo. Isso, porém, não invalida o fato de que muitos outros nunca chegam à posição de poderem apontar para o Senhor e testificar dele, porque não querem ser elevados à posição em que isso seria possível.

Desde o princípio, foi propósito de Deus usar as pessoas para fazer a sua obra. O Senhor plantou o jardim, mas colocou o homem nele para cultivar e guardá-lo. Ser usado grandemente por Deus não é roubar a sua glória, mas mostrá-la de uma forma maior – contanto que continuemos, como João Batista e Evan Roberts, a apontar para ele. 

Geralmente, é um espírito maligno, um espírito religioso de falsa modéstia, que procura negar ao homem esta união com Deus em sua obra, com enganos idealistas de que o homem estaria recebendo uma parte maior de sua glória. É correto reconhecer que o homem é apenas o “vaso terreno” e que a glória é toda de Deus, mas é uma idéia humana negar que a glória do Senhor possa estar num vaso terreno.

Para recebermos a graça de Deus, precisamos entender que ele usa as coisas tolas para confundir as sábias, as fracas para confundir as fortes. Antes de sua partida, o Senhor Jesus falou: Declaro-vos, pois, que, desde agora, já não me vereis, até que venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Senhor (Mt 23.39, ênfase acrescentada). Desse modo, ele estava declarando que, daquela hora em diante, nós não o veríamos mais a menos que abençoássemos e aceitássemos aqueles que fossem por ele enviados.  

 
Extraído e adaptado de “Sombras das Coisas Que Virão”, Volume 2, Rick Joyner, Danprewan Editora. Mais informações sobre o ministério de Rick Joyner no site:www.morningstarministries.org.

por Rick Joyner
Postado por Roberto
Fonte: Revista Impacto
Abraço

SANTOS DESCONHECIDOS

Santos Desconhecidos 

WILLIAM WORDSWORTH, numa excelente passagem, expõe sua crença de que existem muito mais poetas no mundo do que supomos,

           "homens dotados de supinos dons,
           Visão e outras mais faculdades divinas",

mas que são desconhecidos porque lhes faltou ou não puderam cultivar o dom da versificação.
Depois ele resume a sua crença numa sentença que sugere verdade que ultrapassa o que quer que ele tenha tido em mente na ocasião:

             "As mais poderosas mentes
             são aquelas das quais, muitas vezes,
             o ruidoso mundo menos ouve."

A maioria de nós, nos momentos de maior sobriedade, admite a validade dessa observação, mas o duro fato é que, quanto às pessoas comuns, não são as descobertas dos momentos de sobriedade que determinam a nossa filosofia de ação; antes, são as noções frívolas e enganosas que o "ruidoso mundo" nos impõe. A sociedade humana em geral (e a nossa em particular) caiu no erro de supor que grandeza e fama são sinônimos. Ao que parece, tem-se como certo que cada geração fornece certo número de homens superiores e que os procedimentos democráticos infalivelmente os encontram e os colocam em posição de proeminência. Quão errado pode ficar o povo!

Basta-nos conhecer, ou sequer ouvir, os grandes nomes de nossa época para descobrirmos quão desprezivelmente inferiores são eles, na maioria. Muitos parecem ter chegado à sua eminência atual graças a pulso, descaramento, fibra, atrevimento e muita sorte acidental. Afastamo-nos deles passando mal do estômago e indagando, num momento de desânimo, se isso é o melhor que a raça humana pode produzir. Mas recuperamos o nosso domínio próprio pelo simples expediente de trazer à memória alguns dos homens simples que conhecemos, homens que vivem sem ser anunciados e decantados, e que são feitos de substância infinitamente melhor do que os alardeados fanfarrões que ocupam muitos dos mais altos cargos do território nacional.

Se queremos ver a vida com firme lealdade e em sua totalidade, devemos fazer um estrênuo esforço para romper com o poder daquela falsa filosofia que iguala grandeza a fama. Ambas podem ser, e muitas vezes são, oceanos e continentes separados.

Se a igreja fosse um corpo totalmente livre da influência do mundo, poderíamos lançar o problema acima referido sobre os filósofos seculares e ir cuidar da nossa vida; mas a verdade é que a igreja também padece desta noção má. Os cristãos caíram no hábito de aceitar os mais barulhentos e notórios dentre eles como os melhores e maiores. Eles também aprenderam a igualar popularidade a excelência e, em franco desafio ao Sermão do Monte, aprovam, não os mansos, mas os auto-afirmados; não os que choram, mas os que têm autoconfiança; não os puros de coração, que vêem a Deus, mas os caçadores de publicidade, que buscam manchetes.

Se pudéssemos parafrasear Wordsworth, poderíamos fazer dizer a seus versos:

               "Os mais puros santos
               São aqueles dos quais, muitas vezes,
               a ruidosa igreja menos ouve",

e as palavras seriam verdadeiras, profunda e maravilhosamente verdadeiras.

Depois de mais de trinta anos de observação do cenário religioso, sou forçado a concluir que, muitas vezes, santidade e liderança da igreja não são sinônimos. Em muitas ocasiões, preguei a cristãos cheios de graça, que tinham ido tão mais longe que eu nos doces mistérios de Deus que eu deveras me sentia indigno de amarrar os cordões de seus sapatos. Todavia, eles se assentavam e ouviam mansamente enquanto alguém que lhes era inferior se levantava no lugar de proeminência e declarava com imperfeição verdades que de longa data lhes eram familiares por íntima e bela experiência. Eles devem ter sabido e sentido quanta teoria e quão pouco real e vívido conhecimento havia no sermão, mas nada diziam e, sem dúvida, apreciavam o pequenino benefício que havia na mensagem. 

Fora a igreja uma comunidade pura e cheia do Espírito, totalmente conduzida e dirigida por considerações espirituais, certamente os mais puros e mais santos homens e mulheres seriam os mais apreciados e os objetos de maior honra; mas o que ocorre é o oposto. A vida piedosa não é mais considerada importante, a não ser quanto aos muito velhos ou aos mais que mortos. As almas pias são olvidadas no turbilhão das atividades religiosas. Os ruidosos, os auto-afirmados, os divertidos são procurados e recompensados de todos os modos, com presentes, multidões, oferendas e publicidade.

Os que se assemelham a Cristo, os que se esquecem de si mesmos, os que vivem como se já estivessem no mundo por vir são empurrados para um lado para darem lugar ao último farrista convertido, geralmente não convertido muito bem e tendo ainda muito de farrista. 

Toda filosofia de vista curta, que ignora as qualidades eternas e dá valor a trivialidades, é uma forma de incredulidade. Os cristãos que encarnam essa filosofia anseiam por recompensa atual; são impacientes demais para esperar o tempo do Senhor. Não subsistirão no dia em que Cristo fizer conhecido o segredo do coração de todos os homens e recompensar cada um de acordo com as suas obras. O verdadeiro santo enxerga mais longe; dá pouca importância aos valores transitórios; com os olhos postos no futuro, aguarda anelante o dia em que as realidades eternas virão aos que lhes fazem jus, ocasião em que se verá que a vida piedosa é tudo o que importa. 

Estranho quanto for, as almas mais santas que já viveram ganharam a reputação de pessimistas. Sua sorridente indiferença para com as atrações do mundo e sua firme resistência às tentações que elas exercem têm sido mal compreendidas por pensadores superficiais e atribuídas a um espírito anti-social e à falta de amor à humanidade. O que o mundo não foi capaz de ver é que esses homens e mulheres peculiares contemplavam uma cidade invisível; andavam dia a dia à luz doutro reino, de um reino eterno. Já estavam prelibando os poderes do mundo vindouro e fruindo a distância a vitória de Cristo e as glórias da nova criação. 

Não, os santos desconhecidos não são pessimistas, nem são eles misantropos e desmancha-prazeres. São, em virtude de sua fé religiosa, os únicos verdadeiros otimistas do mundo. Seu credo foi firmado com simplicidade por Juliana de Norwich, quando disse: "Mas tudo estará bem, e tudo estará bem, e todo tipo de coisa estará bem." Apesar de haver pecado no mundo, argumentava ela, uma tremenda visitação a confrontar-nos, tão perfeita é a expiação, que virá o tempo em que todo o mal será erradicado e tudo será restaurado, voltando à sua prístina beleza em Cristo. Então, "tudo estará bem, e todo tipo de coisa estará bem".

O cristão sábio contentar-se-á em esperar por esse dia. No ínterim, servirá a sua geração segundo a vontade de Deus. Se ele for deixado de lado nas lutas por popularidade religiosa, dará a isto atenção mínima. Ele sabe a Quem está procurando agradar e está disposto a deixar que o mundo pense dele o que quiser. De qualquer forma, ele não estará por aqui por muito tempo, e para onde ele vai, os homens não serão conhecidos por algum tipo de classificação daqui da Terra, mas pela santidade do seu caráter. 

Extraído de: HOMEM: HABITAÇÃO DE DEUS, de A.W.TOZER; Editora MUNDO CRISTÃO, p. 79

por William Wordsworth
Postado por Roberto 
Fonte: Revista Impacto
Abraço





PERIGO DA HUMILDADE

O Perigo da Humildade (para o Reino das Trevas) 

Extraído de “Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz”. Trecho de uma carta do diabo experiente Fitafuso ao aprendiz Vermibile, com conselhos para vencer determinados “pacientes” (cristãos). 

(...) O seu paciente tornou-se humilde; você já tentou chamar-lhe a atenção para o fato?

Todas as virtudes são menos terríveis para nós se o homem estiver ciente delas, mas isso é particularmente verdadeiro no caso da humildade. Tente pegá-lo naquele momento em que ele estiver bem pobre de espírito, e sorrateiramente enfie na cabeça dele esta agradável reflexão: “Céus, estou sendo humilde”.

Você verá que quase imediatamente o orgulho – o orgulho pela sua própria humildade – aparecerá. Se ele perceber o perigo e tentar sufocar essa nova forma de orgulho, faça-o ficar orgulhoso de sua tentativa – e assim por diante, em quantos níveis desejar.

Mas não use esse método durante muito tempo, pois você poderá despertar seu senso de humor e proporção e, nesse caso, ele simplesmente rirá de você e irá para a cama dormir.

Existem, porém, outros métodos eficazes para fixar a atenção dele sobre a virtude da Humildade. Por meio dessa virtude, assim como por todas as outras, o nosso Inimigo [Deus] busca desviar a atenção do homem de si mesmo para Ele e para seus semelhantes. Toda a humildade e repulsa por si próprio que um humano pode sentir existem, a longo prazo, apenas para este fim; a não ser que alcancem o seu objetivo, elas causam pouco dano; e podem até mesmo ser de grande ajuda para nós se mantiverem o homem preocupado consigo mesmo e, acima de tudo, se a repulsa por si próprio puder ser transformada no ponto inicial para sentir desprezo pelos outros e, a partir daí, para chegar à melancolia, ao sarcasmo e à crueldade.

Você deve, portanto, esconder de seu paciente a verdadeira finalidade da Humildade. Deixe-o pensar nela não como o ato de esquecer de si mesmo, e sim como um certo tipo de opinião (ou seja, uma opinião rasteira) sobre seus próprios talentos e seu caráter.

Suponho que ele tenha algum talento. Inculque em sua mente a idéia de que a humildade consiste em tentar acreditar que esses talentos são menos valiosos do que ele acredita que são. Sem dúvida, eles são de fato menos valiosos do que ele acredita, mas não é esse o ponto. A grande diferença é fazê-lo dar valor a uma opinião por alguma razão que não seja a verdade, introduzindo, assim, um elemento de desonestidade e faz-de-conta no âmago daquilo que, de outro modo, poderia tornar-se uma virtude.

Com esse método, fomos capazes de fazer com que milhares de humanos pensassem que a humildade significa aquilo que sentem as mulheres bonitas que tentam acreditar que são feias, ou os homens inteligentes que tentam acreditar que são tolos. E já que aquilo em que tentam acreditar pode, em alguns casos, ser um absurdo completo, eles não conseguirão, e aí está a nossa oportunidade para fazer com que quebrem a cabeça para tentar alcançar o impossível.

É preciso antes avaliar os objetivos do Inimigo para prever sua estratégia. O Inimigo quer deixar o homem num estado de espírito no qual ele poderia projetar a melhor catedral do mundo, ter consciência de que é a melhor, alegrar-se com o fato, e ainda assim não ficar nem um pouco mais (ou menos) contente por tê-la feito do que ficaria se a catedral tivesse sido projetada por outra pessoa. 

O Inimigo quer que ele, no fim das contas, livre-se de toda predisposição em proveito próprio para que possa alegrar-se com o próprio talento com a mesma gratidão e sinceridade que sentiria ao testemunhar o talento do seu semelhante – ou ao ver um pôr-do-sol, um elefante, uma cachoeira. Ele quer que cada homem seja a longo prazo capaz de reconhecer todas as criaturas (mesmo ele próprio) como coisas maravilhosas e extraordinárias.

Ele quer matar o amor-próprio animal que existe neles o mais depressa possível; mas é sua política de longo prazo, receio eu, restituir-lhes um novo tipo de amor-próprio – uma caridade e gratidão por todos os seres, incluindo eles próprios; quando, finalmente, aprenderem a amar o próximo como a si mesmos, terão permissão para amar a si mesmos como a seus próximos.

Pois jamais devemos nos esquecer da mais repugnante e inexplicável característica do nosso Inimigo: ele realmente ama esses bípedes implumes que criou e sempre devolve a eles com a mão direita aquilo que tomou deles com a esquerda.

O seu objetivo, portanto, é fazer com que o homem pare completamente de se concentrar no seu próprio valor. O Inimigo preferiria que um homem considerasse a si próprio um grande arquiteto, ou um grande poeta, e depois esquecesse completamente do assunto, a que gastasse seu tempo e sua energia tentando acreditar que é um arquiteto ruim ou um poeta medíocre.

Assim, sempre que você tentar instilar no seu paciente a altivez e a falsa modéstia, ele será defendido pelo Inimigo, que o fará lembrar-se de que em geral um homem não deve sentir-se tentado a ter nenhuma opinião sobre suas próprias qualidades, já que ele pode muito bem continuar a melhorá-las o máximo que puder, e não se preocupar em decidir qual exatamente seria o seu lugar no templo da Fama.

Custe o que custar, você deverá tentar eliminar essa advertência da consciência do seu paciente. O Inimigo também tentará fixar na mente dele uma doutrina que todos eles professam mas acham difícil de adaptar a seus sentimentos – a doutrina de que eles não criaram a si mesmos, que receberam seus dons como dádivas, e que poderiam muito bem, se não fosse assim, ter orgulho da cor de seus próprios cabelos.

Mas o objetivo do Inimigo, independentemente do método, sempre será fazer o seu paciente deixar de se preocupar com essas questões, e o seu papel é fazê-lo pensar nelas. O Inimigo nem sequer deseja que um homem pense demais nos próprios pecados: uma vez arrependido, quanto mais depressa ele deixa de prestar atenção em si mesmo, mais satisfeito fica o Inimigo.                                               
por C. S. Lewis
Postado por Roberto
Fonte: Revista Impacto

RESPOSTA ERRADA

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Resposta Errada - Reflexão


Há muito tempo, em minha primeira tentativa como escritor, produzi doze livretos sobre a fé cristã, que foram publicados seqüencialmente, um por mês.
Certa vez, levei uma pilha desses livretos a um médico cristão, na esperança de que se interessasse em comprar uma dúzia deles para deixá-los no balcão da recepção. Antes de falar com ele, tive que aguardar por algum tempo na sala de espera. Foi uma boa oportunidade para praticar minha apresentação comercial. Ensaiei minha fala até sentir que ele compraria alguns livros.
Finalmente, aquele médico apareceu e sentou-se à minha frente. “Estou pronto”, disse minha consciência confiante e iludida. O médico ouviu minha veemente apresentação.
“Tenho apenas uma pergunta para fazer-lhe”, disse ele. “Por que escreveu este material?”
Essa era fácil, pensei. Se essa fosse sua única preocupação, não haveria problema. Continuei contando-lhe a respeito do meu premente desejo de ver cristãos tornando-se maduros. Expliquei-lhe como meu material havia sido cuidadosamente planejado para ajudar os crentes a crescerem espiritualmente.
“Essa é a resposta errada”, disse ele sem rodeios ao final de minha defesa. “Não desejo nenhum de seus livretos!”
Fiquei chocado! Ao dizer que eu havia dado a resposta errada, senti como se uma corrente elétrica tivesse percorrido todo meu corpo. “Como poderia minha resposta não estar correta?”, pensei. Com ousada incredulidade, perguntei àquele médico o que ele queria dizer co

O que ele respondeu, cerca de trinta anos atrás, marcou-me como uma cicatriz adquirida em uma batalha.
“A única coisa que desejava ouvir de você era que Deus lhe estava conduzindo a escrever essa literatura”, disse o médico. “O que você deseja fazer, mesmo que para cristãos, não me interessa. Se, porém, você tivesse respondido que foi Deus quem plantou esse projeto em seu coração, eu teria comprado todos os seus livros.”
Imediatamente, comecei a explicar que essa era uma questão tão básica que sequer precisava ser mencionada. Já estava subentendida.
“Se Deus manda fazer alguma coisa”, continuou ele, interrompendo-me naquele ponto, “isso não deve ser deixado como subentendido, mas deve ser a primeira coisa a ser dita.”
Com essas palavras, aquele médico levantou-se e despediu-me. Voltei para casa como um cachorrinho com o rabo entre as pernas.
Aprendi uma profunda lição com esse médico cristão. Meu serviço a Deus não deve ser motivado pelas necessidades que percebo em outros, nem mesmo pelos desejos de meu próprio coração. Ao contrário, meu servir deve ser em resposta clara à direção do Espírito Santo. Serviço do nosso próprio jeito, ainda que para o Senhor, não é aceitável. Aquilo que faço para ele deve ser, antes de tudo, a resposta ao seu próprio mover em meu coração.
Deus não está à procura de voluntários que trabalhem para ele, ainda que isso lhes satisfaça o coração. Ao contrário, ele busca pessoas submissas para servir-lhe de maneira a satisfazer o seu coração! 

Extraído de “Histórias que Abrem a Janela Mais Ampla de Deus”, DeVern Fromke, Edições Tesouro Aberto.

por Stephen Swihart
Postado por Roberto
Fonte: Revista Impacto
Abraço